Tecnologia

 

 

A infância e adolescência do século 21 são ímpares. Crianças e adolescentes têm não só seus direitos garantidos e assegurados, como compõem um contexto de alta tecnologia. As revoluções digitais trouxeram para as novas gerações outras formas de ser e de estar no mundo. Se, antes, as crianças e os adolescentes tinham a oportunidade de passar bastante tempo ociosos, juntos, brincando e interagindo longe do olhar dos adultos, hoje as crianças interagem, divertem-se e passam seu tempo na frente das telinhas. O paradoxal dessa situação é que, ao mesmo tempo em que adquiriram novos direitos e um novo lugar na sociedade, perderam muito do tempo ocioso, da liberdade criativa e ingênua que lhes permitiam escapar da influência do universo dos adultos.

Para entender essa nova era tecnológica, as pesquisadoras Maria Luiza Belloni e Nilza Godoy Gomes se debruçam sobre “os novos modos de perceber, de interagir e de aprender desenvolvidos pelas crianças e adolescentes em suas relações com as mídias novas e antigas”. As crianças, para essas pesquisadoras, percebem as mensagens midiáticas à sua maneira e de acordo com as mediações que estabelecem na escola, na família e com seus pares. Constroem um imaginário a partir dos sentidos que atribuem a essas mensagens, e essa interação promove impactos em sua própria imaginação, já que confundem ficção com realidade, super-heróis e personalidades políticas, catástrofes reais com violência fictícia. Inclusive, constroem relações de afeto com os personagens da televisão e da internet – em seu imaginário, eles possuem vida e poder. Sherry Turkle (1984) investigou crianças e jovens de diferentes países e notou que as crianças atribuem aspectos psicológicos às máquinas e se preocupam em saber até que ponto um computador é um ser vivo. Essa é uma situação completamente nova na história da humanidade.

A internet, por exemplo, além de ser uma fonte inesgotável de informação, é uma rede que permite interações sociais virtuais inéditas. A disseminação dessas novas formas de interação virtual ocorre com enorme velocidade. Os principais entusiastas são os jovens, o que acarreta enormes desafios para as famílias, para a escola e para o Estado.

A nova geração interage com essas novas tecnologias com enorme facilidade. Aprendem por si mesmas os funcionamentos das máquinas e apropriam-se de diferentes formas dessas mídias; necessitam, porém, da mediação dos adultos. É esse o alerta da pesquisa de Maria Luiza  e Nilza Godoy: mesmo que as mídias e máquinas propriciem aprendizagens novas e novos modos de aprender, o uso das tecnologias por si só não é suficiente para desenvolver o espírito crítico e as utilizações criativas. É necessária a mediação dos adultos e das instituições educativas para assegurar não só a compreensão das mensagens midiáticas, como para fazer um uso criativo delas.

As pesquisadoras ainda afirmam que essa mediação necessita de que os adultos aprendam com os jovens, uma vez que estes são os que mais se apropriam das novas tecnologias e são os que nasceram na era da informática e na das telecomunicações as quais lhes são, portanto, tão naturais quanto qualquer outro elemento de seu universo de socialização. Como os jovens têm um maior domínio dos recursos tecnológicos, é importante que os adultos se disponibilizem a aprender com eles, sem, no entanto, abdicar da função de mediar, mas auxiliando os adolescentes a compreenderem conteúdos por vezes implícitos nesse universo digital e midiático. É possível, dessa forma, que os jovens aprendam com os adultos a fazer um uso crítico e criativo das tecnologias e que os adultos se situem melhor em alguns recursos digitais... Essa é uma bela e mais do que necessária troca!          

Referências:BELLONI, Maria Luiza. GOMS, Nilza Godoy. INFÂNCIA, MÍDIAS E APRENDIZAGEM: AUTODIDAXIA E COLABORAÇÃO. Educ. Soc., Campinas, vol. 29, n. 104 - Especial, p. 717-746, out. 2008

 

             

 

 

ARTIGOS